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“A RELÍQUIA” [farsa]
De Eça de Queiróz, es pectáculo cómico e musical sobre um texto clássico de um dos maiores romancistas do século XIX. A história conta as peripécias de Raposão, sobrinho de D. Maria do Patrocínio, a “Titi”, velha beata conservadora e extremamente pueril nas suas crenças religiosas. O sobrinho tudo faz para conseguir a herança da Titi, e para isso traz uma relíquia de Jerusalém que “teria pertencido ao Senhor”... Uma troca de embrulhos conduz à derrota dos projectos de Raposão, e reforça o constante espírito de farsa satirizando a problemática social e religiosa. A Nossa RelíquiaÉ evidente que nós não tratámos “A Relíquia” com o respeito cerimonioso e mórbido com que se tratam as relíquias. Pelo contrário, reforçámos o “realismo fantasista da Farsa” (Eça de Queiroz dixit), e sublinhámos o aspecto da crítica das forças sociais, constante na obra do autor. O espectáculo, como é hábito do grupo, é vivo, alegre, aposta na versatilidade do jogo cénico e do trabalho dos actores. A música o exigia, e construímos uma quase? opereta na linha de Offenbach. Quanto ao lado polémico de A Relíquia que aflige ainda alguns narizes beatos e fariseus, é gratificante constatar que a pena de Eça de Queiroz não perdeu a sua lucidez e efeito corrosivo. Basta olhar para o actual panorama de integrismos, fundamentalismos, seitas, superstições, o pedido de perdão do Vaticano, as “beatificações a martelo”, e assim por diante. Não se trata de uma questão de fé, de amar a Deus ou de ter medo do castigo de Nosso Senhor. Trata-se, como sempre, da luta entre racionalismo e obscurantismo, entre humanismo e manipulação de sentimentos, entre, em suma, o verdadeiro e o falso. Como demonstraram, através dos séculos, Gil Vicente, Damião de Góis, Erasmo, Giordano Bruno e muitos outros. Talvez seja essa a única forma de respeitar a Deus. Helder Costa
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